Escrito por: Luigino Bruni
dia 04/04/2009
Querida Chiara, antes de tudo obrigado em nome dos pobres, dos empresários, dos trabalhadores de toda a Economia de Comunhão (EdC): com a sua intuição do ano liberdade e de justiça na normalidade das operações econômicas.
A economia é um dos campos em que o seu carisma vem produzindo muitos frutos. Você dedicou grande atenção, tempo, energia, amor a esse campo do agir humano. Deu vida a uma economia nova a partir dos pobres, daqueles seus fi lhos que você viu na periferia de São Paulo. Eles deram a você a inspiração da comunhão como caminho normal para todos.
Muitos carismas no decorrer da história da Igreja produziram efeitos no campo econômico (Bento, Francisco, Inácio etc.), mas o seu carisma não deu apenas vida a importantes obras econômicas, ele gerou, e continua a gerar, também efeitos na teoria econômica. Se hoje no debate científico e cultural são citadas as expressões bens relacionais, gratuidade, reciprocidade incondicional,
comunhão, ágape, devemos isso a você, que inspirou, com a sua ação e com o seu pensamento, essas novas palavras.
Agora posso dizer que, como estudioso, eu não teria tido qualquer idéia original sem o contínuo relacionamento com você, que foi a minha ininterrupta fonte de inspiração, também no trabalho especificamente científico. Eu tinha apenas feito 30 anos quando você me telefonou em Londres pedindo para que eu fosse para Roma a fim de ajudar você, juntamente com outros esplêndidos companheiros de viagem, a dar dignidade científica à Economia de Comunhão.
Na realidade, dei-me conta imediatamente que a dignidade era bem mais alta do que o aspecto científico, e aquela você já tinha dado, quando fundou a EdC a partir do amor aos pobres do qual fala o Evangelho. Estes dez anos de trabalho ao seu lado na Escola Abba e na Economia de Comunhão foram para mim a experiência mais arrebatadora da minha vida, tanto sob o ponto de vista intelectual quanto humano, uma experiência que você me doou gratuitamente, sem qualquer mérito de minha parte, como os verdadeiros dons que são partilhados uma vez que nem os esperamos e nem os merecemos.
Três coisas tocaram-me profundamente nestes anos vividos com você. A primeira: você me fez entender o que significa um carisma e o papel que não só o seu carisma, mas todo carisma autêntico, desempenha na vida civil e econômica. Compreendi que onde um carisma se coloca em ação há verdadeira gratuidade e verdadeira liberdade, age-se movido por uma vocação interior.
A segunda: você me ensinou, com a vida, que não se pode fazer qualquer experiência autenticamente intelectual se as teorias e os pensamentos que se elaboram e se escrevem não se tornam vida em quem os organiza e produz. Na sua escola entendi que se eu quisesse contribuir com uma teoria econômica de comunhão, a coisa mais importante, e também a de maior empenho, que eu devia fazer era tornar-me dia após dia uma pessoa de comunhão em todos os campos da minha vida. Trabalhando ao seu lado, descobri que não é possível escrever e falar de dom, de comunhão, de gratuidade, sem ser dom, comunhão, gratuidade. Você me fez entender que a vida é maior e precede qualquer conceito. E somente a vida salva de fato, nós e os outros.
Enfim, Chiara, você me levou a descobrir o significado profundo da riqueza e da pobreza. Levou-me a compreender que o bem mais precioso é sempre o relacionamento com Deus e com as pessoas, o amor mútuo, Jesus entre nós: sem relacionamentos de reciprocidade nenhum bem se torna bem-estar, e mesmo quando os bens são escassos ou ameaçados, o amor recíproco nunca permite a indigência.
Somente a comunhão é caminho de felicidade plena, uma felicidade que chega apenas quando nos esquecemos de nós mesmos e nos doamos aos outros na reciprocidade. Essa é a felicidade que procurei relatar por meio dos meus estudos do carisma da unidade.
Carisma que nasce do grito de Jesus na cruz, do qual também está nascendo uma teoria econômica relacional particularmente idônea para ser estudada, a fim de encontrar respostas (uma Economia de Comunhão) para as novas pobrezas de hoje e de amanhã, respostas essas que nascem a partir da solidão e da indigência de relações marcadas pela gratuidade. É a lógica dos carismas que você nos revelou, dons da Providência para tornar suave, num determinado período histórico, o jugo da vida. O seu carisma nos doa novas perspectivas para enxergar as novas carestias e os novos bens relacionais, e edificar uma economia da pessoa e do amor, uma economia mariana (segundo o modelo da vida de Maria, mãe de Jesus).
O trabalho que temos pela frente é grande, você sempre nos disse isso; mas o início foi maravilhoso, muito luminoso, deixou-me sem fôlego. Por isso e por tudo aquilo que você foi para mim, para os economistas, para os empresários e para os trabalhadores e principalmente para os pobres: obrigado, Chiara!